Histórico do programa

Na década de 1970, o governo federal brasileiro implementou políticas para promover a ocupação e o desenvolvimento das regiões interiores do país, especialmente no Centro-Oeste e na Amazônia. Como parte dessa estratégia, foi criada a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em 1970, com o objetivo de fomentar o desenvolvimento econômico do estado. Paralelamente, programas de incentivo à agricultura foram estabelecidos em Mato Grosso, visando transformar vastas áreas de vegetação nativa em zonas produtivas. Essas iniciativas resultaram em um significativo avanço agrícola, mas também levaram a um aumento expressivo do desmatamento no estado, colocando em risco a biodiversidade e os recursos naturais locais.

Desde então, a UFMT tem se dedicado a contribuir para o desenvolvimento econômico e regional, com foco na preservação dos ecossistemas do Pantanal, Cerrado e Floresta Amazônica, tornando-se uma referência em ensino e pesquisa no estado de Mato Grosso. No entanto, por décadas, a pesquisa na instituição foi limitada pelo baixo número de professores com doutorado e pela escassez de programas de pós-graduação stricto sensu, dificultando a formação de profissionais com conhecimento específico sobre a realidade ambiental e socioeconômica da região.

A década de 1990 foi um período crucial para a UFMT se consolidar como referência em estudos sobre os biomas Pantanal, Cerrado e Floresta Amazônica. A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, conhecida como Eco-92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, destacou a importância da preservação ambiental e do combate ao aquecimento global, enfatizando o desenvolvimento sustentável. Em resposta às demandas da Eco-92, o Brasil estabeleceu, em 1998, o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), um programa multidisciplinar coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), com o objetivo de compreender o funcionamento integrado dos ecossistemas amazônicos e suas interações com o sistema climático global.

Nesse mesmo ano, um grupo multidisciplinar de professores doutores da UFMT, com formação em física, química, engenharia, agronomia e geografia, em parceria com o Prof. Dr. George Louis Vourlitis da California State University, San Marcos (CSUSM), aprovou um subprojeto do LBA focado na região de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, no município de Sinop. Esse grupo estabeleceu o primeiro sítio experimental que envolvia a construção de uma torre micrometeorológica para medir as trocas de energia e gases de efeito estufa entre a superfície e a atmosfera, além de variáveis meteorológicas. Foram realizados estudos complementares no entorno da torre, abrangendo a ciclagem de nutrientes da floresta e a dinâmica do lençol freático.

Os resultados das pesquisas conduzidas por esse grupo foram proeminentes e mostraram um potencial de crescimento significativo, dado que os temas abordados eram emergentes e de grande relevância. Diante desse cenário, surgiu a iniciativa de criar um programa multidisciplinar que reunisse pesquisadores de diferentes departamentos da UFMT. Assim, em 2001, foi aprovada a proposta de criação do Programa de Pós-Graduação em Física e Meio Ambiente, na área Interdisciplinar da CAPES, consolidando os esforços da UFMT em formar profissionais capacitados para enfrentar os desafios ambientais e promover o desenvolvimento sustentável da região.

A primeira turma de mestrado iniciou em 2002, composta por professores da UFMT, IFMT, UNEMAT e profissionais liberais. O corpo discente também era multidisciplinar, com formação em biologia, arquitetura e urbanismo, química, engenharia, matemática e física. Esse perfil multidisciplinar do corpo docente e discente permanece uma característica marcante do programa.

Os estudos desenvolvidos na região de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, vinculados ao LBA, e sobre o conforto térmico e eficiência energética de edificações deram forma aos projetos estruturantes do PPGFA no início do programa. Dois projetos destacaram-se nesse período:

  1. Projeto "Mudanças de Uso de Solo na Amazônia: Implicações Climáticas e na Ciclagem de Carbono - Instituto do Milênio LBA" (2002-2005): Financiado pelo CNPq, focou no estudo da dinâmica das trocas de energia, água e carbono entre a floresta e a atmosfera, intercâmbio gasoso de espécies típicas da floresta, dinâmica de nutrientes e decomposição de serrapilheira.
  2. Projeto "Avaliação do Conforto Térmico nas Edificações Cuiabanas dos Últimos Cem Anos" (2003-2005): Também financiado pelo CNPq, teve como foco a avaliação do conforto de ambientes construídos em Cuiabá.

Com o tempo, os temas estudados no programa evoluíram, assim como os locais de pesquisa. A integração do PPGFA ao grupo do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD) - Pantanal Norte (2002-2012), financiado pelo CNPq, foi um marco significativo. O subprojeto "Fluxos Regionais e Globais de Massa e Energia" proporcionou a instalação de uma torre micrometeorológica em uma área monodominante de Cambará na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) SESC Pantanal, servindo de base para diversos estudos micrometeorológicos e ambientais no entorno da torre.

Outro projeto relevante foi o "Implantação de Postos de Observação de Gases-Traço e de Aerossois na Atmosfera em Mato Grosso" (2006-2009), que possibilitou a instalação de torres micrometeorológicas para medições em áreas de Cerrado no município de Santo Antônio do Leverger e em áreas monodominantes de Pombeiro na Base Avançada de Pesquisas do Pantanal (BAPP) no SESC Pantanal.

Destaca-se também o projeto "Dinâmica Sazonal e Interanual da Produtividade Primária e do Balanço de Energia no Cerrado e no Pantanal do Estado de Mato Grosso" (2010-2015), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) através do Programa de Apoio a Núcleos de Excelência - PRONEX. Esse projeto deu suporte a praticamente todas as pesquisas desenvolvidas no período de vigência no programa, desde às atividades de campo nos sítios experimentais, como nas atividades de monitoramento de clima urbano.

A partir de 2012, as pesquisas do PPGFA ampliaram seu escopo para incluir estudos sobre o clima urbano, substituindo as investigações anteriores sobre conforto térmico e eficiência energética em edificações. O projeto "Avaliação do Microclima e a Influência das Configurações Urbanas para Cuiabá/MT" (2012-2016), financiado pela FAPEMAT, deu início a essa nova linha de pesquisa. Diversos estudos foram conduzidos para identificar ilhas de calor urbanas e analisar como diferentes configurações urbanas afetam o microclima de espaços públicos, como praças, estacionamentos e pontos de ônibus.

Os resultados positivos alcançados contribuíram para a aprovação do curso de doutorado em 2007, ocasião em que o programa passou a se chamar Programa de Pós-Graduação em Física Ambiental (PPGFA). Nesse mesmo período, o PPGFA construiu a sua sede própria com recursos do Projeto de Apoio a Programas de Pós-Graduação em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento de Mato Grosso II - APGEMT, aprovado junto ao CT-INFRA/FINEP/MCT, inaugurada em 2008. Com uma área de 512 m², a nova instalação abriga salas de aula, laboratórios de informática, instrumentação, qualidade do ar e clima urbano, além de espaços para professores e pesquisadores. A inauguração coincidiu com o início da primeira turma de doutorado em Física Ambiental.

Com a criação da Área de Ciências Ambientais da CAPES em 2011, o PPGFA migrou da Câmara I - Meio Ambiente e Agrárias da Área Interdisciplinar para a nova área, refletindo sua natureza multidisciplinar e a abordagem transdisciplinar dos temas pesquisados.

A experiência acumulada ao longo dos anos permitiu ao PPGFA atuar como núcleo formador e consolidar grupos de pesquisa em outras instituições. Em 2013, egressos do PPGFA, juntamente com alguns de seus docentes, participaram da criação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCA) na Universidade de Cuiabá (UNIC). Docentes vinculados à UFMT integraram o corpo docente do PPGCA por cinco anos, até a consolidação do novo programa.

Entre 2013 e 2016, o PPGFA promoveu um Doutorado Interinstitucional (DINTER) com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), formando 11 doutores em Ciências Ambientais. Destes, oito eram do campus de Humaitá (sul do Amazonas), dois de Coari e um do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM) em Coari. Esse esforço resultou na criação de novos grupos de pesquisa nessas localidades, ampliando a atuação do programa e fortalecendo a rede de pesquisa na região amazônica. Um exemplo notável foi a criação, em 2017, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais, formado majoritariamente por egressos do DINTER entre o PPGFA e a UFAM.

Nos últimos anos, o amadurecimento do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Física Ambiental (PPGFA) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) permitiu a expansão das linhas de pesquisa para incluir temas como a qualidade do ar em ambientes naturais e antropizados em Mato Grosso. Esses estudos contam com a colaboração do Prof. Dr. Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), e do Prof. Dr. Eduardo Landulfo, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN). Além disso, pesquisas sobre a disponibilidade hídrica e sedimentação em bacias hidrográficas de rios significativos, como o Teles Pires e o Cuiabá, têm sido conduzidas para compreender melhor os recursos hídricos da região. Outro tema de elevada importância é o estudo da dinâmica da evapotranspiração em escala continental por meio de modelos de sensoriamento remoto, realizado em parceria com pesquisadores do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente, o PPGFA permanece ativo em projetos de grande escala, como o Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA) e o Instituto Nacional de Áreas Úmidas (INAU), sendo responsável por sítios experimentais em operação e pela gestão de bancos de dados de projetos desenvolvidos nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal.

O PPGFA destaca-se como o único programa na região a integrar pesquisas sobre o clima e recursos naturais nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. Essa abrangência temática e geográfica atrai alunos não apenas do interior de Mato Grosso, mas também de estados vizinhos e da região Norte, como Mato Grosso do Sul, Rondônia, Amazonas e Amapá. Nos últimos anos, o programa também tem recebido alunos de mestrado e doutorado vindos de países como Moçambique e Haiti. Essa diversidade de origem dos discentes enriquece o ambiente acadêmico e fortalece as pesquisas desenvolvidas no PPGFA.

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